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Argentina x Inglaterra: Como as Malvinas e Maradona forjaram a maior rivalidade das Copas

As maiores rivalidades do futebol costumam ser construídas por confrontos frequentes. Argentina e Inglaterra trilharam um caminho oposto. Separadas por um oceano, as duas seleções transformaram poucos encontros em episódios que atravessaram gerações.

Ao longo de mais de um século, o confronto acumulou influência cultural, disputas políticas, uma guerra, mata-matas de Copa do Mundo e personagens que entraram para a história do esporte.

Argentina e Inglaterra escrevem hoje (dia 15/07) mais um capítulo dessa história. Em jogo, uma vaga na final do Mundial de 2026.

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Influência britânica no futebol argentino

Muito antes de se tornarem rivais históricos, foram os britânicos que ajudaram a introduzir uma das maiores paixões nacionais no país sul-americano. A história começou na segunda metade do século XIX, quando milhares de cidadãos do Reino Unido migraram para Buenos Aires impulsionados pela expansão ferroviária e industrial.

Entre os costumes trazidos na bagagem estava o futebol. O primeiro registro de uma partida oficial na Argentina ocorreu em 20 de junho de 1867, organizada pelos irmãos Thomas e James Hogg.

Inicialmente restrita à comunidade inglesa, a modalidade ganhou organização graças ao professor escocês Alexander Watson Hutton, que chegou ao país em 1882 e foi decisivo para estruturar e popularizar sua prática. Sob sua liderança nasceu a Argentine Association Football League, atual AFA (Asociación del Fútbol Argentino).

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A influência inglesa era tão grande que expressões do cotidiano, como corner (escanteio) e foul (falta), eram usadas com naturalidade. Além disso, clubes adotaram nomes no idioma, caso de Newell’s Old Boys, Banfield, Boca Juniors, River Plate e Racing.

Os dois primeiros tiveram fundadores britânicos. Já os demais recorreram ao inglês para transmitir prestígio e a ideia de modernidade.

Esse cenário começou a mudar quando a bola chegou aos potreros (terrenos baldios) das periferias de Buenos Aires. Aos poucos, o estilo de jogo passou a refletir a cultura dos bairros populares, valorizando improviso, técnica e criatividade.

Foi nesse contexto que começaram a ganhar força características que, décadas depois, seriam associadas ao futebol argentino: a viveza criolla, marcada pela astúcia e pela catimba, além do jogo físico, do drible curto e da figura mitológica do pibe (o menino de rua talentoso).

Assim, um jogo importado pelos britânicos deixou de reproduzir o modelo europeu e passou a expressar a identidade local. Décadas depois, seriam justamente essas características que colocariam a Inglaterra do outro lado da história.

A confusão na Copa de 1966

Quase um século depois de a Inglaterra ajudar a introduzir o futebol na Argentina, a relação entre os dois países ganhou outro significado. Na Copa do Mundo de 1966, realizada na terra da rainha, as seleções se enfrentaram pelas quartas de final.

Ao final dos 90 minutos, os anfitriões venceram por 1 a 0 e, semanas depois, conquistariam o primeiro – e, até hoje, único – título mundial de sua história. O placar, porém, foi apenas parte da história.

O clima de tensão, a arbitragem e a repercussão transformaram aquele confronto no primeiro grande capítulo da rivalidade moderna. A partida ficou marcada pela expulsão do argentino Antonio Rattín.

O capitão reclamou com o árbitro alemão Rudolf Kreitlein de uma falta não marcada e acabou sendo informado verbalmente – na época ainda não existiam cartões amarelos e vermelhos – de que estava fora do jogo.

Argentina x Inglaterra em 1966
O técnico Alf Ramsey, ao centro, tenta evitar que George Cohen (direita) troque camisa com Alberto Gonzalez –
Foto PA Images via Getty Images

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Rattín afirmou mais tarde que apenas pedia um intérprete, já que ele e Kreitlein não falavam a mesma língua. Segundo parte da imprensa argentina, o árbitro não gostou da forma como o atleta o encarou durante a reclamação. Já parte da mídia britânica sustentou que a expulsão ocorreu pelo tom agressivo utilizado nos protestos.

O argentino se recusou a deixar o gramado e, quando finalmente saiu, amassou uma bandeirinha de escanteio com a bandeira do Reino Unido e sentou-se no tapete vermelho reservado para a Rainha Elizabeth II. Os gestos foram interpretados como uma provocação pelo público inglês.

Após a partida, o técnico Alf Ramsey proibiu seus jogadores de realizarem a tradicional troca de camisas e, pouco depois, fez uma declaração que aumentaria ainda mais a tensão entre os dois países.

“Jogamos bem contra pessoas, não contra aqueles que jogam como animais”.

A fala repercutiu imediatamente. Na Argentina, o termo “animais” foi recebido como uma ofensa nacional, enquanto a eliminação passou a ser conhecida como “Robo para la Corona” (“Roubo para a Coroa”), em referência à suposta arbitragem favorável aos donos da casa.

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A partir daquele episódio, o confronto entre as duas seleções deixou de ser apenas um jogo de futebol e passou a simbolizar uma rivalidade que cresceria nas décadas seguintes.

A Guerra das Malvinas

Em 1982, a relação entre Argentina e Inglaterra ultrapassou definitivamente as quatro linhas. Os dois países entraram em guerra pela posse das Ilhas Malvinas, arquipélago no Atlântico Sul administrado pelos britânicos, mas reivindicado pelos argentinos.

O conflito durou 74 dias e terminou com a rendição da Argentina. O saldo foi trágico: 649 militares argentinos mortos – a maioria jovens recrutas de 18 e 19 anos -, além de 255 militares britânicos.

Poucos meses depois, a seleção argentina desembarcou na Espanha para disputar a Copa do Mundo ainda sob o impacto da guerra. Os jogadores só tiveram dimensão do que realmente acontecia quando chegaram à Europa e passaram a receber informações da imprensa internacional.

O elenco também conviveu com dramas pessoais. O meia Osvaldo Ardiles, por exemplo, perdeu um primo, piloto da Força Aérea Argentina, durante o conflito.

“Foi uma época terrível. Os jogadores falavam com suas famílias e as pessoas diziam que estávamos ganhando a guerra por 4 a 0. Na Espanha, pouco a pouco descobrimos que, na verdade, estava havendo um massacre”, lembrou o então técnico César Luis Menotti ao jornal “El Gráfico”.

“A Mão de Deus” e o “Gol do Século”

Quatro anos após a Guerra das Malvinas, Argentina e Inglaterra voltaram a se encontrar nas quartas de final de uma Copa do Mundo. O palco era um dos estádios mais icônicos da história do futebol: o Azteca.

A Albiceleste carregava o trauma recente do conflito e a memória das centenas de jovens argentinos mortos na guerra. Para boa parte do país, o confronto ganhou o peso de uma revanche simbólica.

O que os mais de 114 mil presentes nas arquibancadas não imaginavam era que testemunhariam uma das partidas mais marcantes da história do esporte. Em apenas 90 minutos, Diego Armando Maradona transformou-se, para muitos argentinos, no símbolo dessa revanche ao marcar dois gols que atravessariam gerações.

gol de mão maradona argentina
Foto: Allsport/Getty Images

Aos seis minutos do segundo tempo, com a partida empatada em 0 a 0, a bola foi levantada na área. Maradona, no auge de seus 1,65 m de altura, disputou pelo alto com o goleiro inglês Peter Shilton, cerca de 20 centímetros mais alto.

Para superar a desvantagem física, o camisa 10 usou discretamente a mão esquerda para empurrar a bola para o fundo das redes. Os ingleses protestaram imediatamente, mas o árbitro validou o lance.

Para muitos argentinos, aquele gol representou a expressão máxima da viveza criolla: a astúcia transformada em uma espécie de justiça poética diante do antigo rival. O próprio Maradona eternizou o lance ao dizer que o gol havia sido marcado “um pouco com a cabeça de Maradona e outro pouco com a mão de Deus“.

“Estava pensando em todos os garotos que morreram (na Guerra das Malvinas), todos eles, e foi então que percebi que a mão de Deus me fez marcar.

Não que eu fosse Deus ou que minha mão fosse a de Deus, mas foi a mão de Deus, pensando em todos os jovens assassinados nas Malvinas, que marcou aquele gol”, disse Maradona, em declaração registrada no livro “Maradona: de Diego a D10S”.

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Apenas quatro minutos depois, o camisa 10 mostrou que não precisava da astúcia para superar os inventores do futebol. Recebeu a bola antes do meio de campo, arrancou em direção ao gol, driblou cinco adversários – além de Peter Shilton – e completou para as redes.

Nascia o “Gol do Século“, considerado por muitos o maior gol da história das Copas do Mundo. A narração do jornalista uruguaio Víctor Hugo Morales ajudou a eternizar o momento:

“É para chorar, me perdoem! Maradona, em uma arrancada memorável, na jogada de todos os tempos. Cometa Cósmico, de que planeta você veio para deixar pelo caminho tantos ingleses, para que o país fosse um punho cerrado gritando pela Argentina? (…) Obrigado, Deus, pelo futebol, por Maradona, por estas lágrimas, por este Argentina 2, Inglaterra 0.”

Maradona dribla Peter Shilton para marcar um gol antológico na Copa de 1986
Maradona marcou um gol antológico na vitória da Argentina sobre a Inglaterra em 1986 – Foto AFP via Getty Images

A vitória por 2 a 1 levou a Argentina às semifinais e abriu caminho para a conquista do bicampeonato mundial. Mais do que isso, transformou aquela tarde no Estádio Azteca no capítulo mais emblemático da rivalidade entre argentinos e ingleses.

Os dois gols resumiram, cada um à sua maneira, a identidade construída pelo futebol argentino ao longo de mais de um século: um simbolizou a viveza criolla; o outro, a genialidade nascida nos potreros. Juntos, eternizaram um confronto que ultrapassou o futebol e entrou para a história dos dois países.

Os reencontros posteriores

A rivalidade, no entanto, estava longe de terminar. Argentina e Inglaterra voltaram a se enfrentar em outras duas Copas do Mundo.

No Mundial da França, em 1998, o duelo pelas oitavas de final terminou empatado em 2 a 2, com vitória da Albiceleste nos pênaltis por 5 a 4. O episódio mais marcante foi a expulsão de David Beckham.

O meia recebeu cartão vermelho após reagir com um chute em Diego Simeone enquanto ainda estava caído no gramado. A eliminação o transformou no principal alvo da imprensa inglesa. No dia seguinte, o jornal “Daily Mirror” estampou em sua capa a manchete: “10 Leões Heróicos, Um Garoto Estúpido”.

Rivalidade entre Argentina e Inglaterra em Copas do Mundo
Foto: Mark Leech/Getty Images

Quatro anos depois, o camisa 7 teve a oportunidade de mudar essa história. As duas seleções caíram no mesmo grupo da Copa do Mundo disputada no Japão e na Coreia do Sul. Pressionada após duas eliminações consecutivas diante da rival, a Inglaterra venceu por 1 a 0 com um gol de pênalti do próprio Beckham, encerrando um jejum de 36 anos em Mundiais.

Agora, em 2026, argentinos e ingleses voltam a ficar frente a frente, desta vez valendo vaga na final do Mundial e justamente no ano em que se completam 40 anos do duelo que eternizou a “Mão de Deus” e o “Gol do Século”.

A semifinal desta quarta-feira (15), às 16h (de Brasília), em Atlanta, será o capítulo mais recente de uma rivalidade moldada por futebol, guerra, polêmicas e personagens que entraram para a história.

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Lucas Dantas

Jornalista formado pela UNIFACHA do Rio de Janeiro, apaixonado por futebol e pela arte de contar boas histórias dentro e fora das quatro linhas. Também tento me arriscar na Fórmula 1.

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